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Sexta-feira, Janeiro 28, 2005
Subject: Correio Caros Amigos
Desejos de Natal
por Claudio Julio Tognolli
Uma justa petição de princípios vindicada por Heidegger postula que vivemos numa "rede de utensílios", em que o homem perdeu a sua essência. Porque, vivendo numa vasta teia de apelos, de utensílios, torna-se ele mesmo, esse homem, (mergulhado no óxido da rotina) um utensílio barato. Encantado, sobretudo, por utensílios iguais ao que ele se converteu, esse ser errante busca um pedaço de sua alma perdida justamente nesse ente barato: um utensílio. Eis aí todo o espírito do Natal: consumir é igual a existir. A gozar.
Seria justamente nessas épocas atribuidamente "espirituais" que a massa encontraria aquelas indagações que ajudam a consumir um recente utensílio facilitário chamado auto-ajuda -- tão corporificado em livros que encantam o vulgo. E enriquecem, por exemplo, o médico que veste branco (no consultório e suas objetividades), e que também enverga a mesma cor quando recebe o santo, tocando bumbo e bebericando cachaça nas quartas e sextas da vida...
O mesmo Heidegger prossegue que nossa única saída nessa rede de utensílios seria levar a sério as indagações a que somos levados nesses meses "espirituais" ¿ a que ele chamou de "sentimento de situação" (befindlichkeit). O "sentimento de natal", portanto, deveria avançar um pouco além de nos sentirmos bem aparatados no quesito compra de utensílios. Mas não é assim que a banda toca, te vira nos 30. Que ninguém venha de escada Magirus quando o incêndio é no porão, nota a escritora gaúcha Bela Figueiredo.
Século 21 e a casta humana ainda não aprendeu que não há gozo no gozo. A consecução do gozo o mata. Mas um roteirista da vida acrescentou boas pitadas de humanidade a um untensílio que neste Natal se encontra a apenas RS$ 28,00 nas boas casas do ramo: o filme A Vida de David Gale, com Kevin Spacey, que interpreta um professor universitário sumamente capaz de se matar pelos seus ideais. Logo na primeira cena, ele protagoniza uma fala recheada do pensamento lacaniano. E que ela fique como antídoto, nesse Natal, à nossa rede de utensílios:
"Entendam a idéia de Lacan: As fantasias têm de ser irreais, Porque no momento, no segundo que consegue o que quer, não quer, não pode querer mais.
Para poder continuar a existir
o desejo tem de ter os objetos
eternamente ausentes.
Vocês não querem "algo",
querem a fantasia desse "algo";
O desejo apóia fantasias desvairadas.
Foi essa a idéia de Pascal ao dizer
que somos realmente felizes
quando sonhamos acordados com a felicidade futura.
Daí o ditado:
"O melhor da festa é esperar".
Ou: "cuidado com seus desejos",
Não pelo fato de conseguir o que quer,
mas pelo fato de não querer mais
depois de conseguir.
Então a lição de Lacan é:
Viver de desejos não traz a felicidade.
O verdadeiro significado do ser humano é a luta
para viver por idéias e ideais.
E não medir a vida pelo que obtiverem em termos de desejos,
mas pelos momentos de integridade, compaixão,
racionalidade e até auto-sacrifício.
Porque no final, a única forma de medir
o significado de nossas vidas
é valorizando a vida dos outros...."
Claudio Julio Tognolli é jornalista e professor da ECA-USP.
postado por: Luis Florião 3:06 PM